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A chegada da conectividade à Amazônia tem sido apresentada como um passo decisivo para a inclusão social, o acesso a direitos e a integração dos territórios historicamente marginalizados às políticas públicas digitais nos últimos anos. Programas de inclusão digital como WiFi-BrasilAprender Conectado anunciam a conexão de milhares de pessoas. As publicidades do Norte Conectado do Governo Federal anunciam a ligação de milhões de pessoas por meio de mais de três mil quilômetros de cabos de fibra óptica lançados pelos rios, com a promessa de levar internet a municípios remotos e reduzir o chamado “custo amazônico” e os riscos ao meio ambiente. A estratégia de utilizar as infovias fluviais, segundo estes programas, é diminuir impactos ambientais e evitar a abertura de novas estradas na floresta.

Na prática, porém, a conectividade que chega aos territórios ainda é frágil, descontínua e desigual. Povos indígenas, quilombolas e ribeirinhos seguem convivendo com redes instáveis, ausência de energia elétrica regular, equipamentos inadequados e preços incompatíveis com a realidade local. 

O que ficou da COP30 em relação à conectividade

COP30, realizada em Belém no final de 2025, colocou a Amazônia no centro do debate climático global. A conectividade apareceu de forma recorrente nos discursos de governos e organismos internacionais, apresentada como ferramenta estratégica para monitoramento ambiental, educação a distância, telemedicina e participação social. Programas de infraestrutura digital, políticas de inclusão digital na Amazônia foram apresentados como exemplos de “inovação sustentável”, capazes de integrar a região às cadeias globais de conhecimento e financiamento climático.

Entretanto, ao final da conferência, as lacunas na conectividade das periferias e territórios indígena na Amazônia continuam e persistem. Lideranças indígenas alertaram que, sem participação comunitária, a internet pode reproduzir velhas formas de colonialismo: coleta de dados sem consentimento, vigilância sobre territórios e dependência de grandes empresas de tecnologia, como é o caso da conectividade via Starlink, a rede global de Satélites de Baixa Órbita (LEO, na sigla em inglês),  em várias partes da Amazônia.

A COP30 debateu a importância das políticas públicas de inclusão digital que preservem o meio ambiente e apontou que a conectividade é condição fundamental para a justiça climática: sem internet, comunidades não acessam alertas de eventos extremos, políticas de reparação, nem espaços de decisão. Outro ponto a se destacar é que a conectividade continua sendo pensada “de fora para dentro”, subordinada a interesses geopolíticos e corporativos, distante das prioridades locais, como fortalecimento das línguas indígenas, proteção territorial e economia comunitária.

 

Diante disso, organizações da sociedade civil já debatem as soluções de como deve ser a conectividade na Amazônia há tempos. Para citar um exemplo desse esforço coletivo é a Carta de Recomendações para Políticas Digitais na Amazônia , liderada pelo Centro Popular de Comunicação e Audiovisual (CPA) lançado em 2023, e assinado por várias organizações, coletivos, entre estes, a Rede Wayuri

Pós COP30, as discussões de debates sobre a conectividade na Amazônia, por políticas públicas mais inclusivas e sustentáveis vão passar a ganhar força, e deve contemplar, especialmente, a presença e a participação de representantes das comunidades que estão espalhadas pela Amazônia. 

Conectividade significativa: do conceito à realidade amazônica

Nos debates do Fórum da Internet no Brasil consolidou-se a compreensão de que não basta instalar antenas ou puxar cabos pelos rios: o simples acesso a internet não é suficiente para a conectividade considerada significativa. Nesse contexto de repensar metodologias para pensar a conectividade no Brasil chega a noção de conectividade significativa, um conceito introduzido em 2019 pela pela Alliance for Affordable Internet (A4AI) e posteriormente aprimorado pela União Internacional de Telecomunicações (UIT). Em 2024, NIC.br lançou o estudo “Conectividade Significativa: propostas para medição e o retrato da população no Brasil” a partir de 9 indicadores. 

No debate sobre a universalização do acesso à internet, a noção de conectividade significativa é uma referência importante, mas não a única. Discussões sobre o conceito e propõem uma abordagem empírica para medir as condições de acesso e uso da internet no país. 

No contexto Amazônico, onde as pesquisas enfrentam desafios para levantar dados sobre a conectividade,  a região Norte concentra um dos contextos mais desafiadores em termos de conectividade significativa de acordo com relatório Redes na Floresta – Mapeamento das Políticas de Inclusão Digital na Região Amazônica Brasileira publicada pelo InternetLab em parceira com o Instituto Nupef em 2025. Apenas 11% da população alcança os níveis mais altos da escala, enquanto 44% figura no grupo com as piores condições de acesso

una mujer hablando en una panel con fondo verde

Na prática, muitas comunidades indígena e ribeirinhas não tem acesso à energia elétrica em tempo integral e os acessos dependem do uso de antenas como da Starlink, que poucas pessoas tem a capacidade financeira em adquirir ou manter. As políticas de inclusão digital que chegam, por serem de acesso livre, em muitos casos muitos usuários se conectam ao mesmo tempo e a qualidade de conexão fica ruim, ao ponto de que uma atividade simples, como baixar um edital público, acessar plataformas como Gov.br ou participar de uma reunião virtual, tornam-se desafios. 

Quando esses conceitos são utilizados para mensurar a conectividade na amazônica, percebe-se o tamanho do desafio. Ainda hoje há comunidades indígenas em territórios distantes dos centros urbanos e comunidades ribeirinhas que nem sequer têm acesso a sinal de internet, ou quando tem sinal, o que chega é um serviço precário. Esse cenário abre brechas para a dependência de iniciativas individuais, o que muitas vezes amplia desigualdades em vez de reduzi-las. Transformar esse cenário é condição para que a internet deixe de ser apenas um cabo atravessando a floresta e se torne, de fato, uma ferramenta de fortalecimento dos povos.

O papel das organizações indígenas e comunitárias

É importante lembrar que as iniciativas e projetos desenvolvidos por organizações da sociedade civil, como as organizações indígenas, não substituem as políticas públicas nem têm o objetivo de assumir o papel do Estado. Mas, na Amazônia especialmente, algumas organizações ou redes de organizações têm construído caminhos e alternativas de mobilização pela conectividade e internet nos territórios diante da falta de efetividade das políticas públicas. 

Citamos alguns casos, como a iniciativa da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN), organização representativa dos 23 povos indígenas que vivem na região e que promove a conexão das comunidades indígena há vários anos através de parcerias e redes de apoio. Outro projeto em destaque é projeto Conexão Povos da Floresta, realizado por uma coalizão de organizações indígenas e da sociedade civil que já conectou 2188 comunidades em 9 estados da Amazônia, com número de usuários ultrapassando 50 mil pessoas (números de janeiro de 2026). 

un grupo de personas marchando con una bandera roja. Un hombre lleva una guitarra

Essas experiências mostram que a conectividade só faz sentido quando vinculada a projetos de vida para fins como a vigilância territorial contra garimpo, venda direta de artesanato, aulas interculturais, fortalecimento das assembleias comunitárias. A internet torna-se ferramenta política e um instrumento importante para a gestão territorial. 

Na COP30 ficou clara a necessidade e a importância da conectividade dessas populações, que estão diretamente envolvidas no cuidado dos territórios e das florestas, dos rios e da biodiversidade que as cerca – e que são fundamentais para frear a crise climática que vivemos hoje. 

Para além do cabo: conectividade com a floresta em pé

A conectividade na Amazônia não pode repetir a lógica das grandes obras, como as grandes hidrelétricas que foram construídos na Amazônia e que chegaram sem diálogo ou sem consulta aos povos originários e ribeirinhos que seriam afetados. Hoje esses projetos (hidrelétricas e outros empreendimentos) estão destruindo os rios, as vidas e a biodiversidade. A conectividade precisa ser uma política que chega para fortalecer a defesa dos territórios, das línguas e das economias locais. 

Para o contexto Amazônico o conceito da conectividade significativa deve ser apropriado e ressignificado para além dos indicadores já existentes, deve incluir também as dimensões sociais e culturais. Para isso, os debates e a construção de políticas públicas de inclusão digital precisam ser feitos com a participação dessas comunidades. Só assim será possível uma conectividade que atenda as reais demandas e seja de fato uma tecnologia que permita acesso aos direitos fundamentais, promova a justiça social, respeite as populações amazônicas que são responsáveis por manter a floresta em pé.

Juliana Baré e Ray Baniwa são comunicadores da Rede Wayuri e participaram da COP30 em Belém/PA.