[Em português] #7 Refletindo sobre gênero e raça a partir de duas experiências centradas nas comunidades no Brasil

Episódio 7|7 September 2023|22 minutes
Engage

Bem-vindes ao Brasil e ao nosso primeiro conteúdo em português! Este é o sétimo episódio do podcast, que está disponível em 12 episódios em inglês. Nesta edição, compartilhamos uma história de São Paulo, a maior cidade em população do Brasil e da América do Sul. Conversamos com a Daiane Araújo, que conta a experiência da “Casa dos Meninos”. Esta é uma iniciativa que trabalha tecnologias de informação e comunicação com jovens da periferia da cidade. Ela atua em projetos de redes comunitárias e reflete sobre sua relação com questões de gênero, raça e classe.

Viajamos também para Monteiro Lobato (SP), onde mora a Luísa Bagope. Ela é uma das idealizadoras do projeto “Nós por Nós”, que trabalha a tecnologia relacionada com questões de gênero e feminismo.

Este é o podcast “Conectando comunidades: Uma jornada em áudio sobre conectividade comunitária ao redor do mundo”. Aqui você ouve histórias de vida de pessoas que participam de iniciativas de conectividade feitas pelas e para as comunidades, e que se conectam na defesa dos direitos e do bem-estar de seus territórios.
 

Histórias e vozes que estão entrelaçadas, conectadas por um fio comum: a construção de redes comunitárias de internet e comunicação.

Olá! Meu nome é Beatriz Pasqualino e eu sou a apresentadora desta temporada sobre iniciativas de conectividade feitas pelas e para as comunidades ao redor do mundo.

A primeira temporada do nosso podcast contou com 12 episódios e 24 entrevistados de 15 países diferentes. Ela está toda disponível em inglês. Este é o sétimo episódio da nossa série e hoje você vai conhecer mais sobre uma história da minha cidade natal: São Paulo, a maior cidade em população no Brasil e na América do Sul. E hoje a gente vai conversar em português.

Esta é Daiane Araújo, que faz parte da "Casa dos Meninos" há mais de 10 anos. Ela trabalha em projetos focados em tecnologias de informação e comunicação, juventude e no território. Todos nas periferias da cidade.

Neste episódio, também conversamos com Luísa Bagope. Ela trabalha no projeto "Nós por Nós" abordando questões de gênero e feminismo no interior de São Paulo.

Bem-vindes ao Brasil! 

Conectando comunidades: Uma jornada em áudio sobre conectividade comunitária ao redor do mundo.

Para aqueles que não conhecem bem o Brasil, muitas vezes somos reconhecidos como o país do futebol, das belezas naturais e de cultura abundante. Mas somos muito mais do que isso. Este é também um dos países que enfrenta grandes desigualdades sociais e econômicas no mundo. E é a sede de experiências de resistência de diversos movimentos sociais.

Com um total de 203 milhões de habitantes, o país recentemente voltou ao mapa da fome. Segundo a ONU, 21 milhões de pessoas enfrentaram insegurança alimentar grave em 2022. O racismo e o sexismo são problemas profundos por aqui. E toda essa disparidade, obviamente, se reflete também no campo da conectividade e tecnologias digitais. 

Os dados apresentados no relatório de 2023 que você acabou de ouvir indicam que mais de 23 milhões de brasileiros não têm acesso à internet. Isso também revela desigualdades profundas entre áreas urbanas e rurais, entre diferentes regiões do país, classes sociais e faixas etárias.

E é para transformar essas desigualdades que redes comunitárias estão surgindo em muitos países, incluindo o Brasil. Nesse podcast a gente compartilha histórias de vida de pessoas que criaram iniciativas inspiradoras e lideradas pela comunidade para se conectarem e defenderem os direitos e o bem-estar em seus territórios.

Neste episódio, vamos viajar para o Sudeste do país. Aqui, na cidade de São Paulo, o centro financeiro do país, os contrastes sociais são extremamente visíveis.

Daiane fala do bairro Jardim São Luiz, na zona sul de São Paulo. Ela mora lá e também faz parte de uma organização social sem fins lucrativos chamada "Casa dos Meninos". Localizada também no Jardim São Luiz, a atuação dessa organização foca no uso de novas tecnologias e no estudo do território pelos jovens locais. Eles também construíram uma rede comunitária em 2010.

As redes comunitárias emergem especialmente em áreas vulnerabilizadas por desigualdades históricas e, não por coincidência, onde os serviços privados de conexão são inexistentes ou inadequados e as políticas públicas ainda não chegaram. Elas são estruturadas por meio da mobilização de pessoas locais, que se organizam para construir alternativas de conectividade coletivamente e instalar as suas próprias infraestruturas de rede nos territórios. Nesse processo, a criação e o uso da internet ou de uma rede de comunicação local partem de prioridades, demandas e sonhos daquele território. No Brasil, elas já estão presentes em todas as regiões e em muitos territórios, como os de  populações quilombolas, indígenas, rurais, ribeirinhas, tradicionais e periféricas.

Após concluir o Ensino Médio, essas perguntas levaram Daiane a se inscrever em um curso na Casa dos Meninos. Esse treinamento envolvia jovens trabalhadores no estudo e desenvolvimento de mapas por meio de software de georreferenciamento. Depois disso, ela foi convidada a fazer parte da Casa dos Meninos.

A Casa dos Meninos recebeu esse nome porque começou como um orfanato na década de 1960, mas o local com essa função foi depois desativado.

Na década de 1980, o prédio foi cedido à comunidade do Jardim São Luís, que o transformou em uma associação para cuidar de crianças e adolescentes por meio de assistência social. Em 1999, e ao longo dos anos 2000, foi estabelecida uma parceria com o ativista Cleodon Silva, uma figura importante na Casa dos Meninos.

Cleodon era um ativista de esquerda que resistiu à ditadura civil-militar brasileira durante as décadas de 1960 a 1980. Ele foi um pioneiro no Brasil no trabalho em prol do acesso à tecnologia pelos filhos das classes trabalhadoras. Mesmo após a morte de Cleodon em 2011, seu legado permanece muito vivo na iniciativa.

A rede comunitária da Casa dos Meninos nasceu com o objetivo de criar um espaço comum para os moradores compartilharem recursos de aprendizado, ao mesmo tempo em que resgatam as tecnologias digitais a partir de uma nova perspectiva, baseada em colaboração, solidariedade e práticas de troca locais. Ela passou por altos e baixos ao longo dos anos.

Um dos momentos de destaque foi em 2014, quando a associação participou de uma chamada pública da Prefeitura de São Paulo e conseguiu recursos para comprar um servidor e uma antena. Também para fazer parcerias com coletivos de cultura digital e construir uma rede de Wi-Fi no bairro desenvolvida pela e para a comunidade. No entanto, pouco depois disso, devido à falta de recursos e questões técnicas, a rede da Casa dos Meninos acabou sendo desativada.

Atualmente, a Casa dos Meninos se organiza em diferentes grupos de trabalho liderados por mulheres locais e prepara a retomada da rede. Uma delas é dedicada a aprender mais sobre infraestrutura relacionada às redes comunitárias como, por exemplo, servidores. 

Essa é uma entrevista com Djamila Ribeiro, filósofa e ativista do movimento feminista negro no Brasil. A entrevista foi dada ao programa Roda Viva, da TV Cultura.

Este trecho mostra uma síntese da realidade vivida pela população negra em um país atravessado pelo racismo histórico e estrutural. Mais da metade dos brasileiros são negros. E esse contexto também é marcado por lutas e enfrentamentos envolvendo o mundo da tecnologia e da conectividade. Uma realidade que Daiane conhece muito bem...
 
Partindo da ideia de que a internet e as tecnologias digitais em geral não são neutras e devem ser acessíveis à classe trabalhadora, Daiane acredita ser necessário criar uma relação de afeto no campo das redes comunitárias.

A 125 quilômetros da cidade de São Paulo, você agora viaja comigo para o interior do estado. 

Chegamos a uma pequena cidade com pouco mais de 4 mil habitantes chamada Monteiro Lobato, onde Luísa Bagope mora. Ela é uma das criadoras do projeto "Nós por Nós".

Luísa é uma mulher branca com cabelos curtos e um sorriso largo. Ela é editora de vídeos e diretora de documentários e conheceu as redes comunitárias quando se mudou para uma região rural. Seu primeiro contato foi com a iniciativa "Portal sem Porteiras", uma rede de internet comunitária.

Esse projeto trabalha com conectividade digital e comunicação em um bairro rural, onde vivem mil pessoas. Foi nessa comunidade que ela foi uma das primeiras criadoras, ao lado de Marcela Guerra, do projeto "Nós por Nós", em 2019.

Como um projeto que busca superar as desigualdades digitais entre homens e mulheres, o "Nós por Nós" foi desenvolvido por meio de uma metodologia baseada nos "Círculos de Mulheres". Basicamente, as mulheres se reuniram para trocar conhecimentos sobre tecnologias digitais por meio de outras formas de encontro, como por exemplo, durante um café com bolo, e compartilhando atividades envolvendo outros tipos de tecnologias mais familiares, como cozinhar, fazer artesanato e digitalizar fotos antigas.

À medida que a articulação das mulheres evoluiu, até mesmo podcasts e audionovelas foram produzidos, feitos localmente e com pessoas da comunidade.

Um deles é um programa que debate mulheres e tecnologia. Eles também produziram duas outras audionovelas que utilizaram a ficção para abordar questões sensíveis, como machismo e violência doméstica na região.

E para encerrar nosso episódio, vamos ouvir um pouco mais de Luísa e Marcela, fundadoras do "Nós por Nós", cantando no podcast do projeto. 

Então, gostou de conhecer mais sobre essas experiências?

Espero que os caminhos e reflexões de Daiane e Luísa tenham inspirado você a pensar e agir sobre as relações de poder no mundo hoje. E sobre como a falta de acesso à internet pode refletir e ao mesmo tempo manter desigualdades que precisam ser transformadas, como as de gênero, raça e classe.

Se você deseja saber mais sobre a Casa dos Meninos ou “Nós por Nós” e baixar um livro gratuito sobre metodologias participativas nos "Círculos de Mulheres", basta clicar nos links que deixamos na descrição deste episódio no seu tocador de podcast. Também deixamos alguns links para saber mais sobre as redes comunitárias no Brasil. E também sobre o que precisa avançar no país em termos de regulação, acesso à financiamento e políticas públicas de apoio às comunidades. 

Se você gostou deste episódio, ajude-nos a compartilhar essas vozes e histórias: recomende para aqueles que você sabe que também irão gostar.

Você pode conferir a temporada toda em inglês e conhecer experiências de outros países nas principais plataformas de podcast ou no site da APC: routingforcommunities.apc.org.

Você ouviu o sétimo episódio de "Conectando comunidades: Uma jornada em áudio sobre conectividade comunitária ao redor do mundo". Este é o podcast da iniciativa Redes Locais, um esforço coletivo liderado pela Associação para o Progresso das Comunicações (APC) e Rhizomatica. Produção: Rádio Tertúlia.

Neste episódio, você ouviu conteúdos de áudio do G1, da TV Cultura e uma música do projeto "Nós por Nós".

Obrigada e até a próxima!

Créditos
Este podcast é uma iniciativa da Associação para o Progresso das Comunicações (APC) e da Rhizomatica, e foi produzido pela Rádio Tertúlia.
Roteiro e produção: Vivian Fernandes.
Apresentação e edição: Beatriz Pasqualino.
Apoio de locução: Raíssa Lazarini.
Sonoplastia: André Paroche.
Coodenação: Beatriz Pasqualino and Débora Prado.
Conselho Consultivo: Bruna Zanolli, Cynthia El Khoury, Daniela Bello, Flavia Fascendini, Kathleen Diga ​​​​and Nils Brock.
Tradução: Yasmin Bitencourt.
Ilustrações: Gustavo Nascimento.
Webdesign: Avi Nash and Cathy Chen. 

Esta produção foi apoiada pelo projeto “Conectando os Desconectados: Apoiando redes comunitárias e outras iniciativas de conectividade baseadas na comunidade”, por meio de parceria com a Agência Sueca de Cooperação para o Desenvolvimento Internacional (Sida, na sigla em inglês); e também pelo projeto “Apoiando estratégias lideradas pelas comunidades para endereçar a brecha digital”, com o apoio do Programa de Acesso Digital do Governo do Reino Unido.